BBB: Precisamos falar sobre o que pagamos para ver

Torcer o nariz para o Big Brother Brasil é tão comum quanto repudiar os argentinos em dia de jogo de futebol Brasil versus Argentina. Mas uma coisa que sempre me chama a atenção é a reação da massa aos acontecimentos do programa. Em tempos em que todo mundo gosta de mostrar consciência política online, compartilhando cartazes a favor de animais e pró-vida em redes sociais, uma jovem foi abusada sexualmente (molestada ou estuprada) e enquanto muitos estavam chocados e buscando meios de não deixar o caso passar em branco, homens faziam piadas como “cu de bêbado não tem dono” e algumas mulheres achavam que talvez a culpa também fosse da menina abusada.

O caso de Monique, uma participante serelepe e conhecida por ser fã de jogadores de futebol (leia-se: Maria Chuteira) é um velho inimigo de muitas meninas. É assustador o numero de garotas que bebem demais e, totalmente sem discernimento do que está acontecendo, são induzidas a atos sexuais no fim da noite, por amigos, namorados e flertes. Essas meninas, inclusive, no dia seguinte ainda precisam lidar com adjetivos pejorativos e uma total falta de respeito pelo que lhes aconteceu. É como se elas de fato tivessem aproveitado a situação em uma historia onde, na verdade, elas foram aproveitadas. E se esses casos já podem ser considerados como abuso sexual, em um caso onde a mulher está completamente desacordada durante o ato, não há o que se argumentar. É abuso, é real, é grave.

No último sábado, 14/01, foi transmitida via pay-per-view a primeira festa da edição 2012 do Big Brother Brasil. Durante toda a festa o publico pôde acompanhar de perto as investidas do participante Daniel para cima de uma Monique que driblava o moço, dizendo não querer e mostrava desconforto com a situação. Insistente e apostando na embriaguez da menina, Daniel conseguiu um beijo no final da noite e ao começar a se empolgar com a situação, recebeu um cartão vermelho: a jovem pediu para parar e disse não querer continuar. O mesmo Daniel que já havia sido advertido do fim da brincadeira, voltou minutos após a jovem cair em sono profundo, graças ao álcool misturado ao extrato de guaraná Fusion fabricado pela Antárctica (uma mistura extremamente perigosa e alucinógena, equivalente a misturar álcool com arrebite) e se aproveitou da menina, que em momento algum mostrou participar do que estava acontecendo, acordando no dia seguinte sem entender o porque a cama estava molhada e ela apenas de calcinha.

O programa dirigido por José Bonifácio Brasil de Oliveira, ou Boninho, transmitiu todo o ocorrido ao vivo, sem interferir nos acontecimentos e ainda  tentou ludibriar vitima e publico no dia que seguinte – afirmando ao vivo através de Pedro Bial que “O amor é lindo” e trazendo uma edição que fazia parecer que a jovem cedeu as investidas do agressor. Em vão. Ainda que muitos não entendam a gravidade do ocorrido, por sorte ainda existem neste país aqueles que somam dois mais dois e sabem que se permitirmos que algo desta magnitude passe em branco, estaremos abrindo uma caixa de pandora, nos deixando invadir por um completo descontrole e distorção da moral. Assistimos sim ao Big Brother, votamos errado e somos enganados sim por nossos políticos, mas tudo tem limite. Nós não precisamos deixar as sombras tomarem nossos ambientes comuns para depois virmos declarar que não sabíamos sobre o que estava acontecendo, que não esperávamos e que fomos pegos de surpresa, tal como fez o ex-presidente de uma terra meio zoneada que nem lembro o nome. Nós sabemos o que aconteceu e desta vez não engolimos.

Estamos em 2012 e as pessoas ainda chamam as mulheres que se tornam independentes e livram-se de ditados machistas de vadias, jovens homossexuais ainda são abusados por vizinhos, primos e amigos e são colocados a acreditar que por serem afeminados eles buscaram receber um abuso sexual (que às vezes é até taxado de sacanagem às escondidas, vejam só!), jovens são agredidas por usarem vestido curto, pessoas ainda dizem que só é estupro quando não é realizado por um loiro de olhos azuis e no Big Brother Brasil abuso sexual é editado como conseqüências do álcool. Será que não é o momento de acordar?

Com a eliminação do participante Daniel, talvez em poucas semanas o caso seja esquecido, meninas continuem passando por estas situações enquanto são chamadas de promíscuas, mas um aprendizado importante fica: Mesmo que tenha sido apenas para resolver um caso do Big Brother Brasil, nós ainda temos voz. Talvez, se fôssemos mais espertos, nós pudéssemos usar essa mesma voz para alcançar objetivos muito maiores. Afinal de contas, ainda temos tanto pelo que lutar…

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